No próximo dia 1º de junho de 2025, a Catedral de Santa Luzia, em Mossoró (RN), será palco de uma celebração especial em homenagem ao 59º Dia Mundial das Comunicações Sociais. A Santa Missa terá início às 11h e será presidida pelo pároco, Padre Antoniel Alves.
Inspirado no tema “Partilhai com mansidão a esperança que está nos vossos corações”, o evento convida comunicadores, agentes de pastoral, profissionais da imprensa e toda a comunidade a refletirem sobre a importância de uma comunicação guiada pela mansidão, esperança e verdade.
Confira a MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O 19º DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS
(publicada em 24 de janeiro de 2025) Partilhai com mansidão a esperança que está nos vossos corações (cf. 1 Pd 3,15-16)
Queridos irmãos e irmãs!
Neste nosso tempo marcado pela desinformação e pela polarização, no qual alguns centros de poder controlam uma
grande massa de dados e de informações sem precedentes, dirijo-me a vós consciente do quanto, hoje mais do que
nunca, é necessário o vosso trabalho de jornalistas e comunicadores. Precisamos do vosso compromisso corajoso
em colocar no centro da comunicação a responsabilidade pessoal e coletiva para com o próximo.
Ao pensar no Jubileu que estamos a celebrar como um período de graça em tempos tão conturbados, com esta
Mensagem gostaria de vos convidar a ser comunicadores de esperança, começando pela renovação do vosso trabalho e
missão segundo o espírito do Evangelho.
Desarmar a comunicação
Hoje em dia, com demasiada frequência, a comunicação não gera esperança, mas sim medo e desespero,
preconceitos e rancores, fanatismo e até ódio. Muitas vezes, simplifica a realidade para suscitar reações instintivas; usa a
palavra como uma espada; recorre mesmo a informações falsas ou habilmente distorcidas para enviar mensagens
destinadas a exaltar os ânimos, a provocar e a ferir. Já várias vezes insisti na necessidade de “desarmar” a comunicação,
de a purificar da agressividade. Nunca dá bom resultado reduzir a realidade a slogans. Desde os talk shows televisivos
até às guerras verbais nas redes sociais, todos constatamos o risco de prevalecer o paradigma da competição, da
contraposição, da vontade de dominar e possuir, da manipulação da opinião pública.
Há ainda um outro fenómeno preocupante: poderíamos designá-lo como a “dispersão programada da atenção”
através de sistemas digitais que, ao traçarem o nosso perfil deacordo com as lógicas do mercado, alteram a nossa perceção
da realidade. Acontece portanto que assistimos, muitas vezes impotentes, a uma espécie de atomização dos
interesses, o que acaba por minar os fundamentos do nosso ser comunidade, a capacidade de trabalhar em conjunto por
um bem comum, de nos ouvirmos uns aos outros, de compreendermos as razões do outro. Parece que, para a
afirmação de si próprio, seja indispensável identificar um “inimigo” a quem atacar verbalmente. E quando o outro se
torna um “inimigo”, quando o seu rosto e a sua dignidade são obscurecidos de modo a escarnecê-lo e ridicularizá-lo,
perde-se igualmente a possibilidade de gerar esperança.
Como nos ensinou D. Tonino Bello, todos os conflitos «encontram a sua raiz no desvanecer dos rostos» [1]. Não
podemos render-nos a esta lógica.
Na verdade, ter esperança não é de todo fácil. Georges Bernanos dizia que «só têm esperança aqueles que ousaram
desesperar das ilusões e mentiras nas quais encontravam segurança e que falsamente confundiam com esperança. […]
A esperança é um risco que é preciso correr. É o risco dos riscos» [2]. A esperança é uma virtude escondida, pertinaz e
paciente. No entanto, para os cristãos, a esperança não é uma escolha, mas uma condição imprescindível. Como
recordava Bento XVI na Encíclica Spe salvi, a esperança não é um otimismo passivo, antes pelo contrário, é uma virtude
“performativa”, capaz de mudar a vida: «Quem tem esperança, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova» (n. 2).
Dar com mansidão a razão da nossa esperança
Na Primeira Carta de São Pedro (cf. 3, 15-16), encontramos uma síntese admirável na qual se relacionam a
esperança com o testemunho e a comunicação cristã: «no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor,
sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça; com mansidão e respeito». Gostaria
de me deter em três mensagens que podemos extrair destas palavras.
«No íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor». A esperança dos cristãos tem um rosto: o rosto do
Senhor ressuscitado. A sua promessa de estar sempre connosco através do dom do Espírito Santo permite-nos
esperar contra toda a esperança e ver, mesmo quando tudo parece perdido, as escondidas migalhas de bem.
A segunda mensagem pede-nos para estarmos dispostos a dar razão da nossa esperança. É interessante notar que o
Apóstolo convida a dar conta da esperança «a todo aquele que vo-la peça». Os cristãos não são, antes de mais, aqueles
que “falam” de Deus, mas aqueles que fazem ressoar a beleza do seu amor, uma maneira nova de viver cada pequena
coisa. É o amor vivido que suscita a pergunta e exige uma resposta: por que é que viveis assim? Por que é que sois
assim?
Por fim, na expressão de São Pedro encontramos uma terceira mensagem: a resposta a este pedido deve ser dada
“com mansidão e respeito”. A comunicação dos cristãos – e eu diria até a comunicação em geral – deve ser feita com
mansidão, com proximidade: eis o estilo dos companheiros de viagem, na peugada do maior Comunicador de todos os
tempos, Jesus de Nazaré, que ao longo do caminho dialogava com os dois discípulos de Emaús, fazendo-lhes arder os
corações através do modo como interpretava os acontecimentos à luz das Escrituras.
Por isso, sonho com uma comunicação que saiba fazer de nós companheiros de viagem de tantos irmãos e irmãs
nossos para, em tempos tão conturbados, reacender neles a esperança. Uma comunicação que seja capaz de falar ao
coração, de suscitar não reações impetuosas de fechamento e raiva, mas atitudes de abertura e amizade; capaz de apostar
na beleza e na esperança mesmo nas situações aparentemente mais desesperadas; de gerar empenho,
empatia, interesse pelos outros. Uma comunicação que nos ajude a «reconhecer a dignidade de cada ser humano e a
cuidar juntos da nossa casa comum» (Carta enc. Dilexit nos, 217).
Sonho com uma comunicação que não venda ilusões ou medos, mas seja capaz de dar razões para ter esperança.
Martin Luther King disse: «Se eu puder ajudar alguém enquanto caminho, se eu puder alegrar alguém com uma
palavra ou uma canção… então a minha vida não terá sido vivida em vão» [3]. Para isso, precisamos de nos curar da
“doença” do protagonismo e da autorreferencialidade, evitar o risco de falarmos de nós mesmos: o bom comunicador faz
com que quem ouve, lê ou vê se torne participante, esteja próximo, possa encontrar o melhor de si e entrar com estas
atitudes nas histórias contadas. Comunicar deste modo ajuda a tornarmo-nos “peregrinos de esperança”, como diz o
lema do Jubileu.
Esperar juntos
A esperança é sempre um projeto comunitário. Pensemos, por um momento, na grandeza da mensagem
deste ano de graça: estamos todos – realmente todos! – convidados a recomeçar, a deixar que Deus nos reerga, nos
abrace e inunde de misericórdia. E entrelaçadas com tudo isto estão a dimensão pessoal e a dimensão comunitária. É
em conjunto que nos pomos a caminho, peregrinamos com tantos irmãos e irmãs, e, juntos, atravessamos a Porta Santa.
O Jubileu tem muitas implicações sociais. Pensemos, por exemplo, na mensagem de misericórdia e esperança para
quem vive nas prisões, ou no apelo à proximidade e à ternura para com os que sofrem e estão à margem. O Jubileu recordanos que todos os que se tornam construtores da paz «serão chamados filhos de Deus» (Mt 5, 9). E, deste modo, abre-nos à esperança, aponta-nos a necessidade de uma comunicação atenta, amável, refletida, capaz de indicar
caminhos de diálogo. Encorajo-vos, portanto, a descobrir e a contar tantas histórias de bem escondidas por detrás das
notícias; a imitar aqueles exploradores de ouro que, incansavelmente, peneiram a areia em busca duma
pequeníssima pepita.
É importante encontrar estas sementes de esperança e dá-las a conhecer. Ajuda o mundo a ser um pouco menos
surdo ao grito dos últimos, um pouco menos indiferente, um pouco menos fechado. Que saibais sempre encontrar as
centelhas de bem que nos permitem ter esperança. Este tipo de comunicação pode ajudar a tecer a comunhão, a fazer-nos
sentir menos sós, a redescobrir a importância de caminhar juntos.
Não esqueçais o coração
Queridos irmãos e irmãs, perante as vertiginosas conquistas da técnica, convido-vos a cuidar do coração, ou
seja, da vossa vida interior. O que é que isto significa? Deixovos algumas pistas.
Sede mansos e nunca esqueçais o rosto do outro; falai ao coração das mulheres e dos homens ao serviço de quem
desempenhais o vosso trabalho.
Não permitais que as reações instintivas guiem a vossa comunicação. Semeai sempre esperança, mesmo quando é
difícil, quando custa, quando parece não dar frutos.
Procurai praticar uma comunicação que saiba curar as feridas da nossa humanidade.
Dai espaço à confiança do coração que, como uma flor frágil mas resistente, não sucumbe no meio das intempéries
da vida, mas brota e cresce nos lugares mais inesperados: na esperança das mães que rezam todos os dias para rever os
seus filhos regressar das trincheiras de um conflito; na esperança dos pais que emigram, entre inúmeros riscos e
peripécias, à procura de um futuro melhor; na esperança das crianças que, mesmo no meio dos escombros das guerras e
nas ruas pobres das favelas, conseguem brincar, sorrir e acreditar na vida.
Sede testemunhas e promotores de uma comunicação não hostil, que difunda uma cultura do cuidado, construa
pontes e atravesse os muros visíveis e invisíveis do nosso tempo.
Contai histórias imbuídas de esperança, tomando a peito o nosso destino comum e escrevendo juntos a história do
nosso futuro.
Tudo isto podeis e podemos fazê-lo com a graça de Deus, que o Jubileu nos ajuda a receber em abundância. Por isto,
rezo por cada um de vós e pelo vosso trabalho, e vos abençoo.
Roma, São João de Latrão, na Memória de São Francisco de Sales, 24 de janeiro de 2025.
Francisco
__________________________
[1] “La pace come ricerca del volto”, in Omelie e scritti
quaresimali, Molfetta 1994, 317.
[2] Georges Bernanos, La liberté, pour quoi faire?, Paris 1995.
[3] Sermão“ The Drum Major Instinct”, 4 de fevereiro de 1968.
————–
https://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/communications/d
ocuments/20250124-messaggio-comunicazioni-sociali.html