VERBO SERTANEJO

Kalliane Amorim: a poeta que bordava os detalhes de um mundo peregrino

Escritora de linguagem delicada e olhar atento, Kalliane Amorim construiu uma obra marcada pela contemplação dos pequenos detalhes do cotidiano. Sua escrita, comparada a um bordado, hobby de que gostava , revelava, ponto a ponto, sentimentos, memórias e percepções que escapam ao ritmo acelerado da vida.

Natural de Umarizal (RN), a autora encontrava no Sítio Camponesa, propriedade de seus avós, na zona rural, o cenário ideal para nutrir sua inspiração. Era ali, entre silêncios, afetos e paisagens familiares, que sua poesia ganhava forma. As vivências com a família, as lembranças da infância e o incentivo de uma professora de Português foram determinantes para o despertar de sua vocação literária.

Em seus textos, a poeta abordava temas universais como o cotidiano, os medos, os desejos, a maternidade e a espiritualidade, com destaque para sua profunda experiência de fé. Sua poesia não apenas expressava sentimentos, mas convidava o leitor a uma escuta interior e a um novo olhar sobre o mundo.

Em entrevista ao Portal Papo Cultural, a escritora destacou o encantamento com a força da linguagem:

“Se há algo que me encanta na poesia, e na literatura de um modo geral, é essa capacidade dos autores de brincar com os sons e os sentidos das palavras, imprimindo musicalidade aos textos e possibilitando ao leitor despertar sua consciência linguística e sua forma de ver o mundo e as pessoas.”

Professora do IFRN e mestre pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, Kalliane Amorim também se reconhecia como mossoroense por adoção, mantendo laços profundos com a cidade e sua cultura.

Entre suas obras publicadas estão os livros de poemas Outonos (2002), Exercício de Silêncio (2006), Relicário (2015), Peregrina (2020), Olhinhos de Poeta (Infantil- 2021) e As Misericórdias do Senhor (autobiografia 2023) que consolidam sua trajetória literária sensível.

Ao ser questionada sobre sua identidade como poeta, respondeu com simplicidade:

“Uma pessoa simples, que gosta de livros, pássaros, plantas, conversas e culinária. Uma professora que ama seu trabalho. Uma poeta mais de alma do que de palavras.”

Kalliane Amorim faleceu em 10 de maio de 2023, aos 40 anos, após anos de luta contra um câncer de mama. Sua partida precoce não silencia sua voz, ao contrário, perpetua sua presença por meio de uma poesia que continua tocando leitores e revelando, com delicadeza, a beleza escondida nas coisas simples.

 

Varal

Escreva um verso,

Pendure no varal

e deixe que o vento

ensine as palavras

a esvoaçar.

Um verso

que não  se diz

é ouro

sem serventia:

não ilumina

o olhar do outro.

Um verso

que não voa

de boca em boca

deixa o mundo

a cada dia

amordaçado.

Um verso

que não navega

em nossa amplidão

naufraga

sem vida

à beira

de nós.

( Relicário)

 

 

--:--
--:--
  • cover