Cedida

VERBO SERTANEJO

Quando a poesia chama: os versos e encantamentos de Ailton Siqueira

Onde há encanto, há poesia. Pisando firme na areia e mantendo o olhar fixo no mar, o poeta Ailton Siqueira de Sousa Fonseca relembra a infância vivida entre repentes, histórias de Trancoso e causos de assombração narrados pelos avós no Sítio Canto Grande, zona rural de Afonso Bezerra (RN), no Vale do Assu.

“Ali, o mundo não era apenas mundo. Havia encantamento”, comenta, enquanto recolhe uma pequena concha na praia.

Em seguida, volta o olhar para o horizonte e diz que a poesia não nasceu nele, mas que foi ele quem nasceu dentro dela. “Não sou eu que falo poesia. É ela que usa minha voz para se dizer”, afirma.

Professor da UERN, mestre e doutor, Ailton revela que sua relação com as palavras vai além da escrita. Gosta de sentir o que elas dizem e, principalmente, de escutar aquilo que silenciam. “Há muita poesia no indizível, naquilo que o verbo não consegue nomear.”

A poesia vem do latim poiesis: criação. É uma forma de ver e “transver” o mundo, atravessando o comum até que o invisível apareça. Por isso, considera a poesia transgressiva, envolvente e mágica. “Ela diz mais do que as palavras que usa. E, quando não diz além, talvez não seja poesia.”

Acostumado às salas de aula, aos círculos de leitura e às palestras, o professor fala de ciência e poesia com a mesma fluidez de quem enxerga beleza nas pequenas coisas. Para Ailton, o poeta é aquele que permanece atento aos sussurros do mundo e às vozes silenciosas da vida.

“As poesias chegam quando querem. Entram sem pedir licença, atravessam meus olhos, invadem meus pensamentos e tomam minha boca até que eu escreva. A poesia não me obedece — ela me acontece.”

Depois de escritos, os versos retornam a ele como quem vem de outro mundo. E só permanecem aqueles que provocam “o susto do prazer”, expressão inspirada em Clarice Lispector, uma de suas maiores referências literárias.

Entre os autores que o acompanham estão Fernando Pessoa, Octavio Paz, Ernesto Sabato, Rumi, Tagore, Mia Couto, Orides Fontela, Manoel de Barros e os poetas potiguares Antônio Francisco e José Di Rosa Maria, o Ribamar.

Enquanto sente a água fria do mar tocar os pés, Ailton deixa um recado quase em forma de oração: “A poesia não enche. Ela preenche.” Preenche os sentidos, o coração e aquilo que falta à existência humana. Para ele, a poesia tem o dom de atravessar as pessoas e levá-las para além das próprias palavras.

 

 

Produção

Autor do livro A Odisseia de Si: a reconstrução do homem em Clarice Lispector, Ailton prepara uma nova obra com pequenos poemas e devaneios poéticos. Também possui capítulos publicados sobre Clarice Lispector, Octavio Paz, Ernesto Sabato, além de estudos que unem ciência e poesia.

Poesia

Uma parte sempre é o todo

Abandonar o mundo porque uma parte dele está estragada?

A água se separa da umidade?

O vento se aparta do ar?

O fogo se sustenta fora da lenha?

Por mais que tu queiras, sempre existirá uma parte tua que nunca te abandonará.

Tu estás tão ligado a ti mesmo, como o vento está ligado ao ar,

Como o rio está preso à água,

Como a brasa está cheia de fogo.

A tua sombra te dá medo, mas ela também é tua benção.

Quando tu, não mais condenares a tua própria escuridão, então tu serás

Abençoado por ti mesmo.

O absurdo se tornará graça.

Aquele que vive em núpcias consigo mesmo, vive num paraíso.

Poesia (II)

Hoje acordei e inaugurei em mim uma revolução silenciosa.

Caminhei o dia inteiro despido —

não só de roupas,

mas das pressas e das defesas —

entregue ao sol

como quem aprende, outra vez, a ser corpo.

Ao cair da tarde, sentei-me na areia,

e o mundo foi ficando lento dentro dos meus olhos.

Contemplei o crepúsculo

como quem escuta um segredo antigo.

E esperei — pacientemente —

que a noite viesse,

não como ausência de luz,

mas como um manto de estrelas

derramado por Deus

para cobrir, com infinito,

os meus sonhos.

Poesia (III)

Tudo está ligado a tudo.

Céu e terra,

água e fogo,

luz e escuridão.

O uno e o diverso

tudo é universo.

Se tudo se relaciona,

ninguém toca um grão de areia

sem alterar

o brilho das estrelas.

Poesia (IV)

Há em mim

Algo que não toco

E mesmo assim me atravessa.

Há em mim

Algo que não sabe de mim

E mesmo assim me vigia.

Há em mim

Algo que me devora

E mesmo assim continuo vivendo.

Há em mim

Portas que eu mesmo fecho

Como quem aprende com isso

A se acolher e caber dentro de mim mesmo.

 

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