VERBO SERTANEJO

No compasso do pandeiro: Mestre Concriz e a resistência do coco de embolada

“Eu sou um pássaro que tem uma asa só para voar no arrebol, falta um pra me ajudar…”

 

Era o sopro dos anos 1970. Entre versos ligeiros e a cadência vibrante do pandeiro, José Antônio da Silva( o eterno Mestre Concriz do Coco), afinava rimas ao lado de João Preá antes de atravessar as portas da Rádio Rural de Mossoró. Ali, no programa Hora da Qualhada, comandado por seu Mané (in memoriam), ecoava uma das mais autênticas expressões da cultura nordestina: o coco de embolada.

Mais tarde, Concriz dividiria o improviso com o renomado embolador Cachimbinho, tornando-se presença marcante no cenário popular. Hoje, em carreira solo, segue firme, pandeiro em mãos, como um dos últimos guardiões em atividade dessa tradição no Rio Grande do Norte, uma arte que resiste no tempo graças à sua voz, sua memória e sua coragem.

Em Mossoró, sua trajetória ultrapassa os palcos. Mestre Concriz tem se dedicado à preservação e difusão do coco por meio de iniciativas como O Coco de Concriz, com apresentações gratuitas em escolas, praças e universidades, e o projeto Coco na Escola, que aproxima estudantes da riqueza da cultura popular. Sua presença também marca eventos como o Mossoró Cidade Junina, a Festa do Bode, o Festival de Teatro da UERN (FESTUERN) e o BNB Cultural, espaços onde a tradição encontra novos ouvidos.

O coco de embolada, expressão folclórica típica do Nordeste brasileiro, é um duelo poético em forma de canto. Com rimas improvisadas, ritmo acelerado e humor afiado, os emboladores transformam o cotidiano em poesia viva, geralmente em apresentações em dupla, embaladas pelo som pulsante do pandeiro. É arte de feira, de rua, de povo, patrimônio imaterial que pulsa na oralidade.

De Pernambuco ao chão mossoroense

Natural de Timbaúba, em Pernambuco, José Antônio da Silva encontrou em Mossoró (RN), onde vive desde a década de 1960, o solo fértil para florescer sua arte. Desde cedo, encantou-se com cantadores de viola e cordelistas nas feiras populares. Foi nesse ambiente que o improviso o chamou, e ele respondeu com talento.

Incentivado por mestres como Cachimbinho, desenvolveu a habilidade das rimas rápidas, o domínio do pandeiro e a inteligência dos desafios. Com o tempo, tornou-se referência no coco de embolada, levando sua arte a feiras livres e emissoras de rádio por diversos estados do Nordeste.

Homenagens

Foi um dos homenageados com o Troféu Candeeiro, concedido a personalidades importantes para a cultura popular do Rio Grande do Norte. Neste ano, ainda recebeu o Troféu Urso Monxoró, da Câmara Municipal, e a Comenda Mérito Cultural Jerônimo Vingt-Un Rosado Maia, da Prefeitura Municipal e Maçonaria.

Foi contemplado no edital de Premiação de Mestras e Mestres da Lei Paulo Gustavo, operacionalizado pela Secretaria de Cultura do Rio Grande do Norte. Está desenvolvendo os projetos “O Coco de Concriz” e “Coco na Escola”, com apresentações em escolas públicas, universidades, pontos de cultura e feiras e
demais espaços públicos de Mossoró.

Mestre Concriz é, hoje, mais que um artista: é memória viva, ponte entre gerações e símbolo da resistência cultural de um povo que canta sua história no compasso do improviso.

Mais informações – @concrizdococo

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